Bem morar: conceito alia tecnologia, sustentabilidade e qualidade de vida

Bem morar: conceito alia tecnologia, sustentabilidade e qualidade de vida

Luiz
Humberto

Arquiteto

O conceito de morar bem passou por diversas mutações ao longo do tempo, para se adaptar às demandas da vida cotidiana. Hoje, não basta ter uma residência confortável, funcional e esteticamente agradável. Em razão do grande estresse que assola a modernidade, do aumento crescente da violência urbana e do desenvolvimento desordenado das cidades, a qualidade da moradia é diretamente proporcional à quantidade de características que ela consegue reunir, entre sustentabilidade, tecnologia, facilidade de acesso, lazer público disponível e suporte no entorno.

“É fundamental estar instalado adequadamente, claro que respeitando a situação econômica de cada um. E isso significa morar em um local de fácil acesso para sair e chegar, seja de transporte público, seja privado, próximo ao local de trabalho, que possua infraestrutura de oferta de serviços na vizinhança, em um ambiente que não seja poluído e com lazer público disponível”, explica o arquiteto Luiz Humberto Carvalho. Quanto mais características o indivíduo conseguir agregar em sua moradia, menos desgastante será a sua rotina diária.

O acesso facilitado, o nível da malha urbana, a disponibilidade de transporte, o abastecimento de serviços, a proximidade do trabalho, a boa vista, a incidência de sol e ventos vão determinar se a moradia é bem localizada. E sempre que uma pessoa estiver prestes a escolher sua casa ou apartamento, é importante observar todos esses detalhes. “Hoje em dia, as condicionantes que indicam a qualidade da moradia são muito mais relacionadas a aspectos físicos, relativos a questões estruturais”, destaca Luiz Humberto. Esses aspectos contribuirão especialmente para reduzir o tempo gasto com a realização das atividades, melhorando consideravelmente a qualidade de vida do indivíduo.

Tecnologia avançada

Os recursos tecnológicos disponíveis para automação das residências são incontáveis e das mais variadas funções. De acordo com o arquiteto Luiz Humberto é possível automatizar praticamente tudo dentro de casa, e controlar todo o funcionamento da residência ou apartamento por meio de celulares e tablets. “A tecnologia chegou para facilitar nossa vida, mas é preciso que a pessoa tenha consciência daquilo que ela necessita, de sua destreza no uso e do que vai efetivamente utilizar”, conta.

A decisão sobre o que automatizar vai muito das características pessoais de cada um. É possível controlar a iluminação, a climatização, os aparelhos eletrodomésticos, a segurança, o acesso à residência por meio de impressão digital e até adotar soluções de sustentabilidade, como apanhar e reutilizar água pluvial e captar energia solar. Em relação aos investimentos, o arquiteto ressalta que muitas das alternativas tecnológicas já possuem custos mais acessíveis. “A tecnologia é cara quando é lançada. Depois, a tendência é se popularizar e baratear. A grande questão é que precisa haver uma estrutura na residência que absorva e propicie a instalação dessa tecnologia”, esclarece.

Mas, claro, é preciso entender que existe o outro lado, o da dependência. “Não há como retroceder, a tecnologia está aí e precisamos nos adaptar aos problemas e restrições impostas por ela”, destaca Luiz Humberto. O próprio arquiteto conta que já ficou preso fora de casa, por causa desta dependência, após uma queda de energia. “Tive de dormir em um hotel e voltar para casa no outro dia”, contou, rindo. Questionado se não se arrependeu da automatização nesta hora, o profissional foi taxativo: “Precisamos aprender a lidar, não há como fugir disso. Vamos nos acostumando aos benefícios da tecnologia e a dependência acaba sendo uma consequência”, defende.

Sustentabilidade

Em relação às soluções sustentáveis, o arquiteto faz uma importante ponderação: “Hoje em dia está na pauta a sustentabilidade, mas é fundamental analisá-la em seu aspecto global. O que é sustentável para aquele local? O processo para adotar aquela alternativa também o é? É preciso parar de pensar a sustentabilidade apenas do resultado final e passar a observá-la em todo o processo até a instalação daquela solução”, explica. E exemplifica: “Não adianta instalar determinado equipamento, se o transporte dele até o local desejado não é sustentável. Se a quantidade de monóxido de carbono, que será despejada pela combustão incompleta do combustível, vai poluir o meio ambiente, a solução, em sua integralidade, pode deixar de ser sustentável”.

Para Luiz Humberto, é preciso utilizar a tecnologia, mas sem contaminar o meio ambiente e sem permitir que ele perca suas características. Ele cita alguns exemplos de locais que conseguiram equilibrar esta equação com sucesso. “Na Bahia, podemos citar Porto Seguro, a Chapada Diamantina e Trancoso, como locais que conseguiram adotar soluções tecnológicas e sustentáveis avançadas, sem agredir o ecossistema e mantendo suas peculiaridades”, cita. Outro detalhe de que o profissional chama a atenção é em relação à manutenção da sensibilidade e personalização do ambiente. “Não se deve apenas instalar a solução sustentável ou tecnológica, é preciso pensá-la dentro do contexto do gosto do cliente, adequá-la à decoração, para que o ambiente não fique frio e técnico demais”, explica.

Espaços compartilhados

O arquiteto coloca, ainda, o compartilhamento de espaços como uma ótima possibilidade de sustentabilidade. Trata-se do uso de áreas comuns, a fim de diminuir o desperdício, promover economias, estimular a interação e a colaboração. Entre as possibilidades, está a construção de uma lavanderia comum em um condomínio. “Imagine que cada apartamento possui uma máquina de lavar, que fica inutilizada por boa parte do tempo. Se houver um espaço com algumas lavandarias, com certeza teremos mais economia e menos desperdício”, pontua Luiz Humberto. Ele destaca que os espaços compartilhados são produtivos e podem suprir a necessidade de subsistência dos núcleos de moradias. Mas faz uma ressalva: “Ainda não existe essa cultura em nosso país, o brasileiro não desenvolveu o hábito de vida em comunidade, precisamos evoluir muito ainda”.