Um bom projeto de arquitetura e design de interiores requer autenticidade, pertencimento e
significado. O desafio de construir espaços autorais conta com o artesanato baiano como grande aliado. As peças feitas à mão carregam histórias, territórios, saberes ancestrais e afetos, atributos valorizados por clientes e profissionais atentos às demandas do morar contemporâneo. Para a arquiteta Celeste Leão, incorporar o artesanato aos projetos é um exercício de sensibilidade, pesquisa e responsabilidade cultural.

O artesanato como linguagem de projeto
Peças artesanais imprimem nos ambientes uma camada de significado que ultrapassa a função de elemento de composição.
“O uso de peças autorais, manuais e afetivas traz ao espaço a conotação de decoração afetiva, fazendo um link direto com as vivências e o cotidiano do cliente” Celeste Leão
Essa conexão emocional transforma o projeto em algo único, afastando-o de soluções genéricas e aproximando-o da história de quem habita o espaço.
Para Celeste Leão, o artesanato não se restringe a um estilo específico. “Ele se insere totalmente nos projetos de arquitetura e design de interiores, tanto no estilo rústico quanto no contemporâneo. Podemos colocar produtos artesanais lado a lado com cristais, vidros e peças industrializadas e luxuosas”, afirma. Segundo ela, esse equilíbrio revela maturidade projetual e demonstra a capacidade do arquiteto de criar espaços sofisticados sem abrir mão da identidade local.

Narrativa e pertencimento
Na arquitetura, cada escolha comunica uma intenção. “O artesanato brasileiro, de forma geral, sempre atuou como elemento de narrativa dos espaços. Quando ele não é utilizado, muitas vezes é por falta de embasamento ou aprofundamento do profissional nesse universo”, observa Celeste Leão. Incorporar o feito à mão é, portanto, uma forma de atribuir identidade, memória e pertencimento aos ambientes.
Sensibilidade e equilíbrio na integração
A integração do artesanato exige critérios claros. Sensibilidade, pesquisa e qualidade das peças são fundamentais.
“O equilíbrio entre produtos manuais, artesanais, luxuosos e industrializados depende totalmente d olhar do profissional. Tem que ter o dom” Celeste Leão
Mais do que quantidade, importa a coerência entre materiais, escalas, texturas e narrativas.
O artesanato pode estar presente desde a concepção do projeto, mas também pode ser incorporado em etapas posteriores. Estares íntimos, gabinetes, circulações e varandas são espaços onde o feito à mão dialoga com naturalidade com outras linguagens contemporâneas.
Curadoria como responsabilidade cultural
Fazer uma boa curadoria vai muito além da escolha estética. “O arquiteto deve frequentar museus, galerias de arte popular, feirinhas, associações e cooperativas de artesãos, além de pesquisar em sites e exposições”, orienta Celeste Leão.
Conhecer a origem da peça, a técnica e a história do artesão são essenciais para evitar o uso meramente ornamental ou produtos descaracterizados.
Nesse processo, o arquiteto atua como mediador entre artesão, cliente e espaço. “Cabe ao profissional mostrar ao cliente o valor de um produto manual que conta histórias, transmite poesia e valoriza a sustentabilidade e a produção local”, destaca.
Onde encontrar artesanato baiano de qualidade
Galerias de arte popular, o Mercado Modelo, a Feira de Caxixis, cooperativas, exposições e ateliês são caminhos para acessar o artesanato baiano com procedência reconhecida. Espaços institucionais como a Casa do Artesanato da Bahia cumprem papel estratégico ao aproximar criadores, especificadores e consumidores. “Ela já faz uma pré-curadoria e permite que o decorador e o cliente conheçam a peça de perto, entendendo seu valor”, ressalta Celeste Leão.
Arquitetura, sustentabilidade e futuro
O artesanato baiano dialoga diretamente com conceitos contemporâneos de sustentabilidade, economia criativa e produção ética. “O feito à mão representa um caminho econômico de desenvolvimento local sustentável, fortalecendo famílias, comunidades e o comércio justo”, pontua a profissional, que deixa o convite: “Frequentem feiras, cooperativas, ateliês, galerias, pesquisem na web e tenham um olhar simpático para o feito à mão, a decoração afetiva e a sustentabilidade”. Preservar e reinventar os saberes artesanais é, acima de tudo, um compromisso com a história, a ancestralidade e o futuro da arquitetura brasileira.
Investimento, conservação e valor simbólico
Ao orientar o cliente, é importante destacar que adquirir artesanato é investir em pessoas, comunidades e sustentabilidade. “É valorizar criadores, muitas vezes de baixa renda, estimular a economia criativa e o consumo consciente”, afirma a arquiteta. A conservação varia conforme o material – barro, madeira, fibras, pedras – e deve seguir as orientações do artesão, com manutenção frequente e cuidadosa.
O valor simbólico, segundo a arquiteta, é imensurável.
“É adquirir uma peça feita com carinho, que carrega energia, afeto e história” Celeste Leão Arquitetura,
sustentabilidade e futuro

