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O mobiliário na nossa vida

É impressionante como o mobiliário residencialfaz parte do dia a dia das pessoas e reflete acultura e a história da nossa sociedade. Uma peça como a cadeira, por exemplo, tem uma elevada capacidade de adquirir valor afetivo, navegando pelo imaginário coletivo das pessoas entre fetiches, necessidades e fantasias.

Cadeiras, muitas vezes, transcendem a sua função primária de sentar e são associadas ao “status” social ou grau de hierarquia de seu usuário, seja na área institucional, seja na área religiosa, como é o caso de um trono real, da cadeira de um bispo, ou de um babalorixá. Repare que, um simples braço de cadeira tem o poder de hierarquizar o móvel, oferecendo muito mais do que o descanso para o nosso braço. As nossas redes de dormir retratam um móvel tipicamente brasileiro, com o mais puro design indígena. São reproduzidas no mundo inteiro e exibem a criatividade de nosso povo e o nosso artesanato, ostentado nas “varandas rendadas”, usadas no passado como diferencial pela aristocracia.

Vejam que somente com esses dois exemplos já é possível perceber que, para falar de design do mobiliário, é necessário contextualizar o seu papel, mesmo que minimamente, em seu tempo, em sua localidade ou na realidade de cada um.

Atualmente, com o surgimento de novos hábitos e novas tecnologias associadas à globalização e ao acesso, quase que ilimitado à informação, o mobiliário passou a incorporar materiais mais tecnológicos na sua fabricação e nos níveis de exigência com a qualidade,ergonomia, funcionalidade, originalidade,impacto ambiental e social. Parece ter alterado a relação do usuário com o produto,acrescentando a questão ética à percepção estética.

Como um móvel feito com madeira de desmatamento pode ser considerado belo? A mesma pergunta vale para as peças produzidas a partir de trabalho escravo, ou para móveis copiados de designers. Percebam que o mobiliário, de repente, adquiriu um novo atributo: o caráter.

Essa qualidade do mobiliário diz respeito a todos os aspectos do móvel, inclusive o criativo. A referida característica de personalidade do mobiliário é refletida na sua forma original, que é fruto da elaboração de uma solução, por um designer ou mestre, para um determinado propósito, o qual, se bem realizado, consegue traduzir de forma natural e poética as experiências e vivências de seu criador, com toda a sua referência geográfica e cultural.

Modismos, modelos estrangeiros e referências de “Pinterest” passaram a fazer parte de um universo globalizado pasteurizado, muito questionado e cada vez menos desejado pelas pessoas que, nesse atual momento, estão carentes de identidade e humanidade.

A frase acima pode ser observada e constatada com o surgimento da busca pelo “novo artesanato”, que valoriza as culturas de localidades que ainda preservam algum tipo de identidade regional; também pela recente valorização dos designers nacionais e pelas novas reedições dos clássicos do design brasileiro, atualizados com madeiras de manejo ambiental.

A quebra de paradigmas também deve estar presente na elaboração e no uso dos móveis modernos, e na atribuição de novos usos aos móveis antigos, visto que as mudanças dos hábitos da família e os novos arranjos do mercado imobiliário pedem uma reflexão sobre o novo mobiliário, considerando que,em um futuro não tão distante, e-books não precisarão de estantes.

As escolhas dos materiais adequados também são de suma importância para a formação do “caráter” do móvel e são fundamentais para oferecer uma boa experiência sensorial ao consumidor, principalmente quando agrega responsabilidades social e ambiental.Materiais macios, aveludados, com perfumes característicos, com texturas e cores,funcionam como um caldeirão de sensações que despertam a memória afetiva do usuário,indo muito além de combinar o tecido do sofá com o da cortina.

Claro que nada disso é garantia absoluta de um bom móvel, de um design maravilhoso ou de uma peça adequada ao seu estilo devida. São apenas alguns pontos curiosos que devem ser observados e questionados na hora de escolher uma peça de mobiliário.

É preciso entender que os móveis têm sim um papel importante na vida das pessoas, eo primeiro passo é descobrir e compreender qual é esse papel.