
Durante décadas, o conceito de casa sustentável esteve associado quase exclusivamente à economia de recursos naturais e à eficiência energética. No entanto, a arquitetura contemporânea amplia esse entendimento ao incorporar, de forma cada vez mais consistente, a relação direta entre o ambiente construído e a saúde humana. Para Mila Liberato, especialista em Arquitetura Saudável e fundadora do escritório Mila Liberato Arquitetura e Design, essa mudança representa um avanço fundamental no modo de projetar.
“Não é de hoje que a arquitetura se preocupa com todos os confortos inerentes ao ser humano. Contudo, atualmente conseguimos mensurar os efeitos que um ambiente pode vir a afetar a saúde individual e coletiva”, afirma a profissional. Essa capacidade de avaliação técnica permite decisões mais conscientes e embasadas, transformando a casa em um agente ativo de bem-estar.
Ambientes que comunicam e moldam comportamentos
O espaço construído exerce influência constante sobre o comportamento, as emoções e a fisiologia humana. Elementos como circulação, iluminação, cores e texturas não são apenas escolhas estéticas, mas instrumentos que impactam diretamente a experiência cotidiana.
“O tempo todo o ambiente está comunicando de forma visual e sensorial” Mila Liberato
Segundo Mila, a sensibilidade do arquiteto está em compreender essas mensagens e traduzi-las em soluções alinhadas às necessidades específicas de cada morador.
Além do aspecto emocional, fatores técnicos relacionados à saúde física ganham protagonismo nos projetos residenciais, como conforto lumínico e acústico, qualidade do ar e da água, escolha criteriosa de materiais, controle de campos eletromagnéticos e integração com a natureza.
O invisível que impacta profundamente o bem-estar
Entre todos os ambientes da casa, o dormitório ocupa posição estratégica quando o assunto é saúde. “No projeto residencial, o ponto de maior atenção, sem dúvida, é o quarto que dormimos, onde passamos a maior parte do período que estamos em casa”, destaca a arquiteta. A qualidade do sono está diretamente ligada à organização do espaço, ao posicionamento da cama, à iluminação, ao projeto elétrico e ao controle de ruídos e ondas de comunicação.
Projetar um quarto saudável significa pensar em isolamento acústico, ventilação adequada, ausência de interferências eletromagnéticas e materiais que não liberem substâncias nocivas. Esses cuidados favorecem o sono regenerativo, essencial para enfrentar o ritmo acelerado da vida contemporânea.
Sustentabilidade e saudabilidade: conceitos complementares
Embora caminhem juntas, sustentabilidade e arquitetura saudável possuem enfoques distintos. A sustentabilidade atua em uma escala coletiva e ambiental, enquanto a saudabilidade tem impacto direto e imediato no indivíduo.
“A sustentabilidade atinge o ser humano numa escala mais ampla, Já a arquitetura saudável tem o foco no indivíduo e produz impacto imediato em uma escala mais direta” Mila Liberato

Quando integradas, essas abordagens potencializam os resultados, promovendo ambientes que respeitam o planeta e, ao mesmo tempo, protegem a saúde de quem os habita.
Materiais, processos e riscos à saúde
A escolha de materiais é um dos pontos mais críticos na criação de ambientes salubres. Muitos produtos
amplamente utilizados ainda contêm substâncias tóxicas, como metais pesados e altos níveis de Compostos Orgânicos Voláteis (COVs). “Nosso corpo não elimina metais pesados, que são nocivos ao sistema nervoso central”, alerta Mila Liberato.
Outro risco significativo está relacionado à presença de mofos e fungos, considerados insalubres em grau
máximo. A especificação correta de materiais, aliada a soluções construtivas adequadas e manutenção contínua, é indispensável para evitar a proliferação desses micro-organismos.
Estética, conforto e saúde no mesmo projeto
Contrariando a ideia de que projetos saudáveis seriam limitados visualmente, a arquitetura saudável busca exatamente o oposto: unir estética, funcionalidade e desempenho humano.
“Usamos da arquitetura de interiores para extrair intencionalmente a melhor performance a favor das pessoas” Mila Liberato
A tecnologia, quando bem aplicada, atua como aliada na criação de espaços que promovem prevenção de doenças, bem-estar e longevidade.
Certificação, planejamento e visão de futuro
A certificação profissional em padrões de ambientes saudáveis reforça a confiabilidade dos projetos ao adotar critérios mais rigorosos do que os exigidos pela normativa brasileira. Para Mila Liberato, um imóvel verdadeiramente saudável é aquele pensado desde a implantação até a manutenção, considerando luz natural, ventilação, acústica, purificação da água e integração com a natureza.
Ao olhar para o futuro, a arquiteta resgata a essência da profissão: criar espaços onde seja possível viver com dignidade. “Arquitetos são profissionais de saúde”, defende, citando a frase da ex-presidente do CAU/BR, Nadia Somekh, que sintetiza o propósito da arquitetura saudável, de projetar ambientes que cuidam das pessoas, hoje e ao longo de toda a vida.

